segunda-feira, 14 de junho de 2010

e mais uma vez

eu estou parada, olhando a chaminé e me perguntando: "será?".

Espero não acreditar em qualquer cara de vermelho por aí, mas juro que por mais que doa às vezes dá vontade de colar uma barbinha num socialista qualquer e esquecer tudo de novo...

Transitivo do impacto da paixão à primeira vista

Há dias que o transito instintivo
em um não-piscar fica assim: definitivo.

Num momento o alternar entre o escuro,
e claro demais... noutro o inferno o céu, inseguro.

Esparramado escorre mais um corpo no degrau,
dor e lamúria de um desastre nacional.

Um, dois, três passantes
logo logo sirenes incessantes.

Mas sei que passaram mais, e esse não vi,
último em memória e primeiro suspiro na UTI

Não há um dia sem ser atormentado
por haver sido atropelado.

Porque vi você, que não sorriu.
E o vidro do meu coração então se partiu.



Fonte: Hoje meu eu acordou meio lírico

quinta-feira, 10 de junho de 2010

as rodas rodam

Minha pele, pelos e cabelos...
Meus panos, meus couros, minhas contas...
Minhas listras, meus brilhos, meus pretos...

meu, meu, meu,
eu, eu, eu.

E assim roda a roda do milhão.
E assim tudo vai rodando e rolando
morro abaixo.

Pior que quando chegamos no fundo,
cavocamos ainda mais.

Porque não basta estar no lodo,
tem descer pelo rastro redondo rumo ao ralo.

terça-feira, 8 de junho de 2010

alergia

Tem coisa que tenho que deixar escrita em algum lugar. Pra isso serve este espaço, né?
Eu sei que não vai fazer sentido pra ninguém mais, mas que se dane.

Outro dia eu estava andando com um cara. Andando mesmo, não é continho, escrita torta, nem nada disso. Eu estava com esse cara de verdade, mais especificamente num ponto de ônibus, quase em frente ao supermercado perto de casa.

Bem, conversa vai e conversa vem, de repente o sujeito me diz o seguinte: "Queria te perguntar uma coisa, você é alérgica a felicidade?"

eu: "Ahn?!"
ele: "É, alérgica a felicidade, você é?"
eu: "Bem... eu a-acho que não... não sei.. o que você quer dizer com isso?"
ele: "Se você não é alérgica a felicidade, então toma aqui um presente"

Ele me deu um chocolate. Daqueles meio amargos, com castanhas. Eu (e acho que mais umas três ou quatro pessoas por perto) fiquei ali parada, estranhando aquela maneira dele de me presentear e sem saber o que dizer.

ele: "Sabe, para mim esse é o melhor chocolate que existe. Ele me lembra um pouco a vida, na verdade... é amargo, mas é doce... mais doce que amargo... e você come, come, come, mas ainda assim não enjoa no final"

E terminou dando um sorriso engraçado. Sabia que estava falando uma coisa estranha de se ouvir num ponto de ônibus à noite. Sabia que eu poderia ir embora achando que ele era maluco e nunca mais aparecer. Mas, sinceramente, nem se importou. Já sequer olhava pra mim, aliás.
Eu ri. Achei graça naquele jeito de falar. Agradeci o presente e disse que, de fato, aquilo fazia algum sentido.

O ônibus chegou, então demos um abraço e ele foi embora. Eu voltei andando pra casa.
Ainda rindo da situação, deixei o chocolate pra mais tarde e pensei até em retribuir o presente.
Infelizmente não nos vimos direito depois. Muitos afazeres. Mas vez por outra eu lembro da cara dele de nem aí enquanto falava. Acho que talvez ele não queira nenhuma retribuição. Só queria mesmo compartilhar alguma coisa.

Uma amiga disse que as pessoas sentem uma estranha liberdade do meu lado. Que me dizem coisas malucas e se sentem livres para serem um pouco loucos. Disse que isso não acontece tanto com os outros, só com alguns, e que se pá isso não é ruim, mas normal é que não é.

Eu gosto disso. Gosto de ouvir estas frases do nada. O dia fica melhor, mais engraçado. E como posso reclamar quando acabo, além de rindo, ganhando um chocolate?
xD

segunda-feira, 31 de maio de 2010

La Noyée



Tu t´en vas à la dérive
Sur la rivière du souvenir
Et moi, courant sur la rive,
Je te crie de revenir
Mais, lentement, tu t´éloignes
Et dans ta course éperdue,
Peu à peu, je te regagne
Un peu de terrain perdu.

De temps en temps, tu t´enfonces
Dans le liquide mouvant
Ou bien, frôlant quelques ronces,
Tu hésites et tu m´attends
En te cachant la figure
Dans ta robe retroussée,
De peur que ne te défigurent
Et la honte et les regrets.

Tu n´es plus qu´une pauvre épave,
Chienne crevée au fil de l´eau
Mais je reste ton esclave
Et plonge dans le ruisseau
Quand le souvenir s´arrête
Et l´océan de l´oubli,
Brisant nos coeurs et nos têtes,
A jamais, nous réunit.

domingo, 30 de maio de 2010

Coxinhas

O menino jogava futebol com os amigos. Mas não gostava de jogar futebol. Estudava, mas não queria estudar. fazia de tudo, mas não queria nada daquilo. Ele queria na verdade vender coxinha. Ele adorava o cheiro da coxinha, adorava o barulho do óleo fritando a massa gorda recheada de frango, de camarão, de queijo. Ele não se importava do que fosse, gostava daquele ambiente e, é claro, de receber o dinheiro por aquilo.

Mas ele não podia ficar lá. Como iria explicar para os pais que queria virar vendedor de coxinha? Ficariam arrasados. E mais: com certeza o deteriam. Como explicar pros amigos que não queria estar lá onde eles estavam. Ririam dele.
Como fritar sozinho uma coxinha? Iria se queimar, com certeza
Resolveu então se virar com o que já estava em sua vida e deixar esse plano pra depois.
O menino acabou aprendendo a tocar violão. Depois veio a guitarra. De repente veio um violino e logo um cello.
Vieram também os shows. E o menino gostava daquilo.
Vieram as multidões, os fãs, as drogas baratas... sempre mudando de um instrumento pro outro, sempre buscando um que seja melhor. Sempre se dando muito bem. Sempre som grana alta e sempre por cima.
Era um sucesso, afinal.
Nunca foi deixado pra trás, nunca lhe escapou uma só coisa que quisesse, nunca foi obrigado a nada. O que mais ele podia querer?

Bem, disso ninguém sabe, mas até hoje quando o menino pára em um bar ou em uma lanchonete, sempre pede sua querida coxinha. Para ele a de frango, tradicional. E de repente ele se pega pensando... o que diabos esta fazendo deste lado do balcão.
E se lembra, com um grande pesar, que tudo foi apenas uma grande desculpa. Ele sabe que não tentou unica e somente por medo. Um medo horripilante de ser quem era.

Quem sabe um dia o menino, pensa ele mesmo, tome coragem, largue a vida que não é sua e vá finalmente se deliciar com o estalar do óleo fervente.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Com uma única palavra...

... até a noite insone fica alegre.
Imagine com várias de uma só vez!

Compartilhar esses momentinhos só já é tão enorme, que quase apaga os novos latejos na fronte. Pelo menos os deixa meio foscos, meio sem importância.
O espelho está de bem comigo hoje. E a pessoa lá de dentro tá dizendo que tudo vai bem.

Porra!
De repente um estalo me fez lembrar da puta sorte que eu tenho.

Maldito otimismo... o copo tá sempre meio cheio.